A mídia dita ou é ditada?
Considerado “o melhor trabalho já produzido com o intuito de melhorar a cobertura policial da imprensa brasileira” por Marcelo Beraba, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, foi lançado na segunda-feira (29), o livro Mídia e violência — Novas tendências na cobertura de criminalidade e segurança no Brasil, da cientista social Silvia Ramos e da jornalista Anabela Paiva.
Para o livro, as autoras conversaram com mais de 90 jornalistas e especialistas, que opinaram sobre questões como o maior destaque dado pela mídia a crimes ocorridos em bairros de classe média do que aos que acontecem na periferia.
Editado pelo Centro de Estudos em Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (Cesec), o Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e a União Européia, o livro é distribuído gratuitamente e está disponível para download.
No debate que precedeu o lançamento, no auditório do 42º andar da Universidade Candido Mendes, especialistas e jornalistas debateram as complexas relações que envolvem imprensa, polícia, vítimas e o mercado.
Silvia Ramos disse que o trabalho une a tradição epistemológica das ciências sociais com o texto jornalístico. Ela contou que, ao receber o livro, o acadêmico Candido Mendes estranhou que um livro de uma cientista social fosse tão bem escrito. A professora então creditou a qualidade do texto à co-autora jornalista. Anabela Paiva, por sua vez, defendeu o fortalecimento das reflexões e análises sociais nas coberturas.
Imprensa independente?
Anabela afirmou que, ao contrário do que se diz, a cobertura jornalística não segue à risca o que o mercado dita. “A imprensa é feita por gente. Cada um tem seus preconceitos, suas idiossincrasias. Isso influi na cobertura. Mas além da emoção, deve-se refletir sobre a sociedade”, disse.
A visão é corroborada por Guilherme Canela, coordenador de Relações Acadêmicas e Pesquisas da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Ele alertou sobre “armadilhas” na análise das notícias, como a de tentar explicar tudo como parte de uma “teoria da conspiração” que teria por trás a vontade dos anunciantes.
“Esses casos existem, mas são exceções. É preciso desmistificar esse mito construído. As variáveis que determinam boas ou más coberturas são muitas”, afirmou. Para mostrar que o que o leitor quer não é necessariamente o que o jornal faz, ele lembrou que os cadernos mais lidos não são aqueles que abrem os jornais.
Canela observou que os jornalistas, em grande parte, são brancos e de classes média e alta, o que os faz ter visões de mundo similares e limitadas. Além disso, disse, as faculdades não privilegiam temáticas sociais. Outro problema é a concentração na polícia como fonte. Para ele, gestores e pesquisadores também devem ser ouvidos. “A imprensa tem o papel de dar uma informação contextualizada. O jornalista deve fazer controle social, verificar para onde vão as verbas”, acrescentou.
O ombudsman da Folha de S. Paulo, Mario Magalhães, também criticou o fato de a polícia ser a principal fonte da imprensa. Para ele, falta independência ao jornalismo. “O compromisso é informar e isso às vezes conflita com o interesse da polícia”. Ele contou que, numa recente operação da polícia em São Paulo, a imprensa chegou depois. As duas partes então negociaram e a ação foi refeita, para que as câmeras pudessem registrar. “A imprensa acaba sendo um porta-voz sofisticado da polícia”, concluiu.
A relação com o mundo acadêmico não é muito melhor, na opinião do jornalista. Ele disse haver um “muro de estranhamento” entre a academia e as redações e que os profissionais das duas áreas desprezam-se mutuamente.
Para Marcelo Beraba, ex-ombudsman da Folha, os jornalistas ainda têm dificuldade de entender, discutir e criticar com propriedade as políticas de segurança pública e os procedimentos de investigação policial. Mas ele acha que deve haver um salto de qualidade não só na cobertura jornalística como também nos políticos, polícias e centros de estudos, insuficientes para a geração dos estudos necessários.
Apesar dos problemas, Beraba acredita que a cobertura da imprensa na área melhorou bastante, tendo transferido o foco dos chamados “grandes casos” para questões relacionadas a problemas sociais. Ele lembrou que há duas décadas assuntos como o Esquadrão da Morte não eram aprofundados.
'Direitos humanos para bandido'
Presente ao evento, o ministro Paulo Vannuchi disse que para se fazer uma boa cobertura de segurança pública o jornalista tem que entender de política nacional. Ele contou ser difícil fazer com que outros políticos do próprio governo federal usem a expressão “direitos humanos” em seus discursos. “Nominar os direitos humanos é uma mini-cruzada. E o bloqueio é assimilado pela mídia, que se move por pesquisas de opinião pública que evidenciam a visão de que direitos humanos é um benefício para bandidos. ‘Direitos humanos’ é visto como inimigo”, afirma o ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.
A falta de direitos humanos nas comunidades pobres do Rio foi o tema da série de reportagens 'Os brasileiros que ainda vivem na ditadura', publicada em agosto no jornal O Globo e vencedora do 29º Prêmio Wladimir Herzog. Representando os autores das reportagens, a repórter Carla Rocha fez um relato sobre todo o processo de elaboração e realização das reportagens, que compararam as violações sofridas pelos moradores das favelas com as violações que ocorreram na ditadura militar no Brasil, mostrando que hoje mudaram os personagens, mas as violações dos direitos humanos continuam ocorrendo.

“Buscamos a história da vida privada das pessoas, dando voz aos atores. O jornalismo não pode prescindir do indivíduo”, disse Carla. Uma grande dificuldade, segundo a repórter, é fazer com que as pessoas contem as suas histórias, uma vez que vítimas de traficantes não fazem denúncia, com medo de vingança, e as estruturas desencorajam os possíveis denunciantes. “São vítimas invisíveis sofrendo caladas, e não acreditam que a denúncia possa resultar em justiça. Essa foi a constatação mais dura desse trabalho. Não tínhamos nada a oferecer, a não ser a catarse”, contou.
Ela disse que os repórteres chegaram às pessoas entrevistadas através de contatos nas comunidades e que preservam com grande cuidado o anonimato de quem os levou às fontes. “Tanto o tráfico, quando a milícia ou a polícia poderia considerar esta pessoa ainda mais culpada”. A repórter defendeu a desvinculação das ouvidorias e corregedorias de polícia.
Jornal sobre gente rica para gente rica
Contradizendo em parte as afirmações de Canela, que minimizou a influência do mercado na produção do noticiário e atribuiu a uniformidade das abordagens à classe social dos repórteres, Carla observou que mais de 80% dos seus colegas da editoria Rio são da Zona Norte, e que, com seus salários, chegaram, no máximo, a Botafogo ou Laranjeiras. “Se o jornal cobre mais gente rica, isso é uma conseqüência do público do jornal. Quem consome notícia no Brasil ainda são as classes média e alta. O noticiário atende ao interesse do leitor”, afirmou.
Magessi: monstro em Catanduvas
A deputada federal e delegada Marina Magessi, que assistia o debate, foi convidada por Silvia Ramos a falar. E falou mesmo. Disse que a taxa de desaparecimentos é totalmente subnotificada, que a corregedoria da polícia é a imprensa e que a polícia só tem medo da imprensa e mais nada.
Ela disse ainda que no presídio de segurança máxima de Cantanduvas estão criando “um monstro”. “Onze presos são líderes do Comando Vermelho e um é do Terceiro Comando. Este fechou com o Comando Vermelho lá dentro. Imaginem o que isso significa para o Rio?”, lançou.
Mais informações:
Jornalistas fazem autocrítica da prática investigativa
Segurança: um desafio para as redações
Mais reflexão na cobertura da segurança pública
Em outros sites:
Orelha do livro, por Marcelo Beraba
Livro completo (arquivo RAR, em formato PDF)
Mídia, violência e retórica - artigo de Candido Mendes de Almeida, reitor da Ucam e acadêmico da ABL.
Os brasileiros que ainda vivem na ditadura, série de reportagens do jornal O Globo, vencedora do 29º Prêmio Wladimir Herzog.






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